Entrevista com Maria Elizeti Pena de 69 anos.
Ela estudava a tabuada, o alfabeto era todo soletrado (ex:c-a-s-a). Não tinham grandes conteúdos.
No interior construíam uma casinha, e a moça do local, que sabia ler e escrever era a professora.
Passava bastante trabalho para estudar, caminhava 8 km para ir e mais 8 km para voltar. Tinha que ir sem tamanco, para não gastar o solado, pois era o único sapato que tinha. Ainda ao chegar a casa, carregava água, ajudava a cuidar dos seis irmãos e ajudar nos serviços domésticos.
A comunicação naquela época: Era através de bilhetes e os pais falavam para as filhas: Se a filha mulher aprender, a ler e escrever bilhete tá bom.
Aos 15 anos, foi trabalhar em uma casa de babá, na casa de uma professora. Assim conseguiu terminar o primário, que era como se fosse hoje até a quinta série. Na localidade da Barragem do Capané, onde estava iniciando a vila, e lá vinham professores da cidade. Conheceu seu marido lá e se casou aos 19 anos e não estudou mais, para cuidar da casa, do marido e dos filhos.
Entrevista com Noemi Silva Freitas de 58 anos.
Começou a estudar aos oito anos, ia para o colégio a cavalo, 10 km de ida e mais 10 km na volta. Estudou só até a terceira série. Ensinavam só o ABC e não ensinavam a tabuada. Aprendeu só a ler e escrever.
Parou de estudar porque o pai dizia filha minha sabendo ler e escrever um bilhete está bom. Trabalhava na roça ,plantava, capinava, fazia doce para vender, ajudava nos trabalhos domésticos, carregava agua do arroio de uma distancia de 4 km. Conheceu seu futuro marido aos 17 anos, quando ele foi para a fazenda de seu pai, para por o carneiro de puxar água.
Comunicação: Era por rádio a bateria, a bateria era carregada por um cata-vento, que só funcionava quando tinha vento, se não, não podiam ouvir o rádio. Pelas comunicações do rádio ela ficava sabendo quando o futuro marido ia visita-lá.
E também usavam reflexo de espelho para se comunicar com os vizinhos das fazendas ao lado. Exemplo: Se havia cachorro atacando as ovelhas, botavam o espelho no sol, para dar o reflexo e o vizinho ir ver as ovelhas.
Aos 19 anos casou, e não estudou mais para cuidar da casa, marido e filhos.
Então pelo que deu para observar, passavam muito trabalho para chegar até as escolas, não havia muito conteúdo e para os pais sabendo ler e escrever estava muito bom.
As mulheres eram criadas para ser somente do lar. Cuidar da casa, marido e filhos. E os homens para trabalharem no pesado, para sustentarem suas famílias.
Os que tinham poder aquisitivo maior colocavam suas filhas nos colégios internos de freiras, na cidade. Em que as meninas iam com seis anos e lá ficavam a semana inteira longe de suas famílias. Estudavam e também trabalhavam, fazendo todos os tipos de serviços domésticos.
E existia o castigo, tipo quem não acordava na hora que a freira batia o sino, tomava um copo de agua gelada no rosto. Ficavam de castigo no escuro, de joelho no milho. Sofriam bastante, além de serem crianças e ficar longe de casa e das famílias, ainda eram humilhadas e castigadas pelas freiras.
Minha Mãe, minha tia e minha sogra, todas estudaram anos e anos nos colégios internos, elas me contam o quanto sofriam de saudades dos pais, com os castigos e com as humilhações.
A televisão já existia, mas no interior só havia o rádio a bateria, e assim mesmo para os que podiam comprar e ainda dependiam do vento para ter bateria,pois, não havia eletricidade.
No meu ponto de vista passavam muito trabalho para poder só aprender a ler e a escrever, tudo era difícil naquela época, a locomoção, o acesso ao colégio. Trabalhavam muito desde pequenos e estudavam muito pouco. Passavam muito trabalho, na verdade não tinha infância e nem direito a educação que vinha de geração em geração.
Hoje em dia temos acesso à educação e existe a obrigatoriedade da criança estar na escola.
Poderia melhorar em muitos aspectos a educação no Brasil, nossos governantes deveriam investir mais na educação do povo, assim teríamos menos criminosos e mais cultura.
Deveriam abrir mais escolas, principalmente aqui na zona rural, onde a maioria dos alunos não tem acesso a computadores e a internet. Um bom ensino médio. Muitos terminam o ensino fundamental e param de estudar, por não ter condições de irem para cidade; e os que conseguem ir, passam dificuldade por não saberem lidar com o computador e internet.
Rádio de 100 anos:
Leda Maria Silveira da Silva, 54 anos.
Fui levada para o internato aos seis anos, era muito pequena. Vinha em casa uma vez por mês. Aprendia a ler, escrever, a tabuada e a trabalhar nos afazeres domésticos.
Nós as internas que limpavam o internato. Não gosto de lembrar, da minha infância.
No segundo grau fui estudar no colégio Rio Branco, e parei em um pensionato ao lado do colégio, lá estudei por dois anos e depois parei de estudar para casar.
Fiz a melhor coisa da minha vida, pois assim tive minha casa, o amor de meu marido e de meus filhos.
Ele é uma pessoa muito especial, temos dois filhos e faz 37 anos que somos casados.
Vivemos sempre alegres e contentes junto a nossos filhos e família.
Maria Elizete
Noemi Silva Freitas.
Leda Maria da Silva
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